Em meu quarto tudo é permanentemente turvo.
Teto turvo, paredes turvas, chão turvo.
Colchão de casal turvo.
A cor turva já é tão presente em minha vida.
Nem consigo dizer se ela está dentro ou fora de mim.
Essas infiltrações no teto estão me irritando...
Mas o que me mata mesmo é a dor de cabeça.
Ai que medo de ser um problema no fígado.
Cirrose talvez? Não, não posso pensar nisso.
Se for muito triste para se pensar, simplesmente não pense.
Franzo os olhos olhando para o teto. Até alivia por um tempo.
Parecem coelhos essas infiltrações.
Talvez seja bom ter esses coelhos de água por perto.
Eles serão espectadores da minha vida, e talvez ela não seja tão solitária.
Sabe, você poderia estar aqui olhando esses coelhos comigo agora.
Ou poderíamos estar fazendo algo muito melhor.
Foi o que planejei para você.
Uma vida sem cobranças, baseada em sexo e insanidade.
Onde jamais conhecêssemos a cor do olho alheio.
Nossa pupila dilatada sempre a esconderia.
Não ligaria de olhar sozinha para os coelhos.
Se as noites eles olhassem escandalizados para mim.
Como a supor “como ela é capaz?”
Você viria, falaríamos algo sem sentido
E nos surpreenderíamos com a confusão de nossos pensamentos.
“Você é estranha.” Você disse.
“Você é estranho.” Eu disse.
Que tal sermos estranhos juntos?
Que tal saber que em algum lugar você não precisa lutar desesperadamente para se encaixar.
Que tal nos alimentarmos das fraquezas um do outro.
E não querer ir em nenhum lugar?
Aqui está tão bom.
Eu, você e os coelhos.
“Não quero destruir a vida de todos que me cercam. E pegar tantos atalhos a ponto de não saber mais o caminho” Você disse
“Quem disse que só olhos claros são bonitos?” Eu disse “todos os olhos são.” Completei
“Seus olhos são claros.” Ele me disse
“Meus olhos são castanhos.” Eu disse
“Não, eles são verdes.” Me disse
É, disso você nunca deveria saber.
Como sinto sua falta, menino perdido.
Como sinto falta de tudo que imaginei que poderia acontecer.
E os coelhos simplesmente dizem “E por que esse menino perdido resolveu tentar se achar?”
“Não sei” respondi “Ele já era perfeito”
Me assusto comigo mesma, e fecho os olhos com força.
“Que maluquice é essa agora de falar com coelhos?” me pergunto