domingo, 25 de março de 2012

Eu e meus coelhos

Em meu quarto tudo é permanentemente turvo.
Teto turvo, paredes turvas, chão turvo.
Colchão de casal turvo.
A cor turva já é tão presente em minha vida.
Nem consigo dizer se ela está dentro ou fora de mim.
Essas infiltrações no teto estão me irritando...
Mas o que me mata mesmo é a dor de cabeça.
Ai que medo de ser um problema no fígado.
Cirrose talvez? Não, não posso pensar nisso.
Se for muito triste para se pensar, simplesmente não pense.

Franzo os olhos olhando para o teto. Até alivia por um tempo.
Parecem coelhos essas infiltrações.
Talvez seja bom ter esses coelhos de água por perto.
Eles serão espectadores da minha vida, e talvez ela não seja tão solitária.

Sabe, você poderia estar aqui olhando esses coelhos comigo agora.
Ou poderíamos estar fazendo algo muito melhor.
Foi o que planejei para você.
Uma vida sem cobranças, baseada em sexo e insanidade.
Onde jamais conhecêssemos a cor do olho alheio.
Nossa pupila dilatada sempre a esconderia.

Não ligaria de olhar sozinha para os coelhos.
Se as noites eles olhassem escandalizados para mim.
Como a supor “como ela é capaz?”
Você viria, falaríamos algo sem sentido
E nos surpreenderíamos com a confusão de nossos pensamentos.
“Você é estranha.” Você disse.
“Você é estranho.” Eu disse.
Que tal sermos estranhos juntos?
Que tal saber que em algum lugar você não precisa lutar desesperadamente para se encaixar.
Que tal nos alimentarmos das fraquezas um do outro.
E não querer ir em nenhum lugar?
Aqui está tão bom.
Eu, você e os coelhos.

“Não quero destruir a vida de todos que me cercam. E pegar tantos atalhos a ponto de não saber mais o caminho” Você disse
“Quem disse que só olhos claros são bonitos?” Eu disse “todos os olhos são.” Completei
“Seus olhos são claros.” Ele me disse
“Meus olhos são castanhos.” Eu disse
“Não, eles são verdes.” Me disse
É, disso você nunca deveria saber.
Como sinto sua falta, menino perdido.
Como sinto falta de tudo que imaginei que poderia acontecer.

E os coelhos simplesmente dizem “E por que esse menino perdido resolveu tentar se achar?”
“Não sei” respondi “Ele já era perfeito”
Me assusto comigo mesma, e fecho os olhos com força.
“Que maluquice é essa agora de falar com coelhos?” me pergunto 

sábado, 24 de março de 2012

A morte da inspiração

Minha tia morreu. Poderia dizer faleceu, não está mais entre nós, mas no fim das contas se trata disso: morte. De vez em quando a morte aparece só para nos relembrar que não somos imortais. E não importa quão fortes e maduros achemos que somos nós vamos sofrer.
                O sofrimento é pesado e mistura saudade, que já traz tristeza, com desesperança e arrependimento por ter protelado tanto aquela visita que a gente jamais suporia que poderia ser a última.
                Será que a gente aprende com o sofrimento? Não sei, se eu fosse aprender algo seria a jamais adiar uma última visita. Mas não tem mais ninguém que seja tão importante quanto você que eu queira visitar nesse momento. Desculpa não ter ido, eu sei que você desculpa, mas ainda sinto toda a culpa aqui, comigo.
                Na minha interpretação dos fatos que eu tenho de acreditar ser bem próxima da sua, acho que está feliz. Finalmente sabe o que tem aí do outro lado. Eu sei que você pensava muito nisso, depois de perder a mãe, a irmã e os sobrinhos. Era engraçado imaginar que você não perdia nenhum culto, enquanto tinha um monte de livros espíritas em casa e rezava para Maria morando em um terreiro de macumba. A própria personalização do sincretismo religioso.
                Você personalizava muitas coisas, apesar de eu nunca ter sabido exatamente o que era. Um quebra cabeças que eu não sabia se tinha perdido as esperanças na vida, ou se tinha uma vontade desesperada de viver. Era tão serena com tudo que acontecia... tão certa do que queria. Certeza de saber exatamente qual o seu lugar no mundo e o que pode fazer por ele.
                Jamais entendi o porquê de você cuidar de um ex namorado com Parkinson, depois de tanto tempo sem vê-lo, se desesperar com os remédios e com os cuidados com ele. Só por que ninguém mais se importava. Eu poderia até me importar, mas assim? Acho que não.
                Desculpa estar fazendo você parecer uma santa, eu sei que não era. Não do jeito tradicional. Você cheirava a cigarros e gatos. Engraçado como acho que não teve uma única vez que fui em sua casa e não tivesse encontrado um gato lá. E os cigarros, bom os cigarros te mataram. Quando você teve o primeiro infarto pediram para você parar e você não parou. Engraçado que você já tinha tentado parar várias vezes, lembro dos adesivos, dos filtros pfeizer que anunciava no Ratinho. Você pelo menos tentou dessa vez?
                Mas de todas as lembranças a que é mais forte são as suas roupas e seus saltos altos. Você me ensinou a andar de salto para a minha formatura do ensino médio, em 2010, e disse que eu não deveria deixar os joelhos dobrarem. Desculpa ter sido uma aluna tão ruim, não sei andar de salto até hoje. Mas sabe que foi bom eu nunca ter devolvido seus tamancos de salto fino? Estão aqui do meu lado enquanto escrevo. Eles estão me olhando constrangidos afinal além de calçá-los muito mal também escrevo muito mal, os coitados nunca me viram fazer nada bem. E devem estar com saudades de quando pés um pouquinho maiores que os meus os calçavam muito mais delicadamente.
                Sempre quis saber onde você usava esses saltos finos, mas com certeza você responderia que os usa em qualquer lugar. Se lembra da sua roupa para o meu aniversário de cinco anos? Sobretudo e salto alto, quando abriu o sobretudo um vestido todo de paetês. Quem além de você usaria um vestido desses para o aniversário da sobrinha de cinco anos? Por isso você era a única, além das bijuterias imensas com pedras que você adorava comprar quando saíamos para comprar sapatos no fim do ano.
                Ano passado nós três não saímos para comprar sapatos porque a vó Sônia estava doente, esse ano também não sairemos nós três. Não vamos comprar sapatos, nem bolsas, nem cintos, nem bijuterias. Nem passar no sebo para comprar os livros espíritas que você gostava de ler, nem conversar com o moço do camarão, das laranjas ou qualquer um deles. A gente não vai na sua casa esse ano, não vai ter nenhum dos meus primos dormindo no seu sofá, você não vai tirar a blusa (sem sutiã por baixo! Por que isso, hein?) com a maior naturalidade do mundo, afinal é a sua casa, nem vou ver a sua banheira no banheiro. Sabia que você foi a primeira pessoa com banheira em casa que conheci? Mesmo tendo uma casa com 30 metros quadrados se muito, à beira do rio na Pavuna. Afinal era seu luxo necessário, você era a diva, e não importa com o que trabalhemos ou onde moramos podemos ser, pelo menos um pouco aquilo que quisermos.
Obrigada, tia. Eu precisava realmente ter te conhecido.